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julho 27, 2013

Amado Ofensor - Parte 5

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Boa leitura!

***
PARTE 5

Os rapazes olham uns para os outros, sem ação. Ráisa começa a atravessar a rua com passos firmes e punhos cerrados em direção à mesa de Renato.”

Alê observa a figura estranha que se aproxima. Ela fica um tanto desconfiada e companha Ráisa com os olhos enquanto dá um gole em seu copo de cerveja. Ráisa passa direto pela mesa. Ela nota que está sendo observada e segue em direção ao balcão do restaurante. Logo em seguida, os três rapazes carecas a seguem e se juntam a ela. Eles pedem uma cerveja e ficam em silêncio por alguns instantes. Ráisa parecia impaciente: tremia compulsivamente a perna direita e dava longas tragadas em seu cigarro. Os clientes das outras mesas olhavam para o grupo com bastante desconfiança. Eles não pareciam normais. Seus rostos tinham expressões inquietas, como se não estivessem ali a fim de descontração. Pareciam estar esperando alguém ou prontos, aguardando o momento certo para anunciar um assalto.

– Que gente esquisita! – Disse Rebeca.

– É... Parece um pessoal meio estranho, mesmo. Vamos ficar de olho aberto – disse Ronaldo.

– Nada haver, gente. Isso é preconceito de vocês. Eles estão ali, quetinhos, bebendo a cervejinhas deles sem incomodar a ninguém. Vocês é que estão de bobagem. – disse Marcela, a namorada de Alê.

– É mesmo, gente. Deixa eles – concordou Fausto. – Agora... que eles são esquisitos, isso eles são. Dá medo, ui!

– O que você acha, Tom? – Perguntou Alê.

Tom estava pensativo e bastante distraído. Não ouviu a pergunta que Alê o fez. Olhava para o nada com uma cara de preocupado.

– Tom? Tom?

Alê chamava até que Renato estalou os dedos em frente ao rosto de Tom – para despertá-lo. Tom ergue as sobrancelhas e volta a atenção ao grupo.

– Pelo visto o mundo da lua não fica tão longe, hein! – Brinca Ronaldo.

– Desculpa gente eu... eu viajei mesmo. – Diz Tom, bastante encabulado.

– Está tudo bem, Tom? Você ficou estranho de repente.

– Não é nada, Alê. Acho que já estou cansado, pronto para ir para casa.

– Bom, pessoal. Estou com o Tom nessa. Já está tarde e eu preciso estar bem cedo no escritório amanhã. – Disse Marcela.

Eles pediram a contra e se preparavam para ir embora. A noite havia sido muito divertida. Eles conversaram, descontraíram, riram, trocaram informação e experiências, contaram casos, acontecidos e aventuras. Foi, de fato, um ótimo programa entre amigos. Fausto saiu de carona com Rebeca e Ronaldo. Tom e Renato entraram no carro de Marcela – ela os daria uma carona para casa. Tom morava no bairro Jacaré e ficava em uma quitinete que pertencia a sua mãe. Ele tinha vontade de se mudar de lá mas suas condições financeiras o forçavam a esperar mais um pouco até poder comprar uma nova casa.
Antes do carro partir, Renato pediu que Marcela esperasse uns cinco minutos. Ele precisava descer e ir ao banheiro.
Ráisa e seu grupo ainda estavam no balcão do restaurante. Em outra situação, eles estariam espreitando a turma de Tom para, quando eles saíssem, fossem perseguidos e maltratados. Mas desta vez, tentavam somente descobrir se era aquele o seu antigo líder de gangue, entre aquelas pessoas.
Renato passou pelo grupo e entrou no banheiro masculino. Celta, um dos integrantes da gangue, o seguiu. Dentro do banheiro, Renato urinava em um mictório. Celta parou do seu lado como se também fosse urinar, olhou para Renato e constatou que aquele era, de fato, quem seu grupo procurava.

– Quanto tempo, hein, cara! – com um pouco de ironia na voz – Depois de tanto tempo longe, a gente se encontra aqui, mijando juntos.

Renato se mantem calado e não olha para Celta. Sendo Cabo Frio uma cidade pequena, encontrar pessoas conhecidas seria algo quase inevitável e Renato entendia isso. Porém, Celta parecia ser um tipo de pessoa que ele não gostaria de conhecer.
Os outros dois rapazes entraram no banheiro e olharam à volta. Ao perceberem que não havia mais nenhum cliente lá dentro a não ser Renato, um deles fez um sinal para o lado de fora da porta. Eles olhavam para Renato que, preocupado, disparou em direção à saída. Antes que ele pudesse passar pela porta, Ráisa entra, bloqueando sua passagem. Ela não se importava com o fato do banheiro ser masculino.

– É você mesmo! Posso saber por onde andou? Por que está andando com aquelas figuras? E... por que fingiu que não me viu? – Ráisa pergunta cruzando os braços e com ira no olhar.

– Olha, me desculpem eu não sei como dizer isso para vocês mas...

– Uau! – interrompeu Ráisa – Até desculpas você está pedindo! Alguma coisa muito séria deve ter acontecido, mesmo.

– Sim, aconteceu sim. Eu posso explicar, mas...

– É bom ter uma ótima explicação mesmo, Adolf. Eu fiquei aqui pensando várias coisas, sem saber onde você estava. Eu quase enlouqueci!

– Você me chamou de Adolf? Olha, vocês devem estar me confundindo com alguém. Eu não sou Adolf. Meu nome é Renato.

Ráisa e os três carecas ficam confusos com aquela fala. Antes, Renato nunca gostava de ser chamado pelo nome verdadeiro. Sempre quis ser chamado de Adolf.
Batendo com a ponta do dedo indicador no peito de Renato, Ráisa diz:

– Olha eu não sei o que há de errado com você, se você enlouqueceu ou se te fizeram alguma lavagem cerebral mas é melhor você voltar logo ao normal porque tem gente te procurando e seu primo está no meu pé, achando que eu estou te escondendo. Ele diz que quer ser ressarcido pelo carro que você destruiu. Portanto, trate de voltar a si porque as coisas estão muito esquisitas por aqui, tá legal?

A gangue se retira do banheiro. Antes de sair pela porta, Ráisa dá a última palavra:

– Ah! Meu telefone continua o mesmo. Me liga assim que você retornar à sanidade, senhor Renato. – Ela decreta, debochada.

Renato entra no carro e senta no banco de trás junto com Tom. Seu rosto esboça uma expressão estarrecida. Ele não fazia ideia de quem eram as pessoas que o abordaram no banheiro do restaurante, mas elas não o eram totalmente estranhas.

– Está tudo bem, Renato? Você está tão calado e pálido – disse Tom, desconfiado e preocupado.

– Sim... está... está tudo bem – Renato gagueja. – Vamos embora. Estamos todos bastante cansados.

Enquanto o carro corria, Marcela e Alê conversavam engajadamente. Marcela falava do escritório e das dores de cabeça que tivera naquela semana por conta dos problemas na administração da empresa. Alê fazia várias perguntas e dava suas opiniões. As duas formavam um casal que se comunicava muito bem. Já no banco de trás, Tom e Renato se mantinham no mais absoluto silêncio. Ambos olhavam para frente com olhares distantes, expressões pensativas e colunas esticadas. Cada um deles tinha algo na cabeça que os incomodava. Renato não conseguia parar de pensar no que havia acontecido no banheiro do restaurante. A cada dia que passava, ele tinha mais medo de seu passado. Estava curioso e ao mesmo tempo, receoso em descobrir a sua relação com aquele grupo estranho.
Tom suspirou atordoado e se recostou no banco. Renato notou que, assim como ele,Tom também não estava legal. Então, entrelaçou seus dedos nos dedos dele, em um gesto de carinho, e deitou-se no encosto. No rádio do carro, tocava a música Somewhere Only We Know da banda Keane. Tom pôs a cabeça sobre o ombro de Renato e os dois fecharam os olhos. Era gostoso e confortante sentir o calor do corpo, um do outro. Naque toque, Renato encontrava um lar receptivo e hospitaleiro. Tom encontrava um abrigo carinhoso, forte e protetor. Era como se o mundo pudesse estar no mais completo caos, mas enquanto os dois estivessem próximos, uma redoma feita da mas silenciosa paz os envolveria. Após poucos minutos o carro parou.

– Atenção, senhores passageiros, estação Jacaré – brinca Alê.

– Você não perde a oportunidade de tirar sarro do meu bairro, não é, sua sacana?!

– Ai, desculpa, Tonzinho. Mas você sabe que eu não resisto à tentação.

Tom e Renato descem do carro. Alê e Marcela trocam abraços de despedida com os rapazes. Tom puxa um molho de chaves do bolso e procura pela chave do portão enquanto Renato senta na calçada e o espera. Quando eles entram em casa, a primeira coisa que Tom faz é lançar-se de costas na cama com os braços abertos e os olhos fechados. Renato senta na beira do colchão e tira o tênis emprestado por Tom. Logo em seguida, ele também deita.

– Tom, você quer me contar por que você ficou tão aéreo hoje na mesa do restaurante? – Renato murmura baixinho.

– Não foi nada... – ele suspira – eu só... só estava cansado.

– Tudo bem... É que você parecia abalado. Parecia estar com um pouco de medo também.

– E você voltou bastante estranho do banheiro do restaurante. Não tem algo para me contar também?

– Não... Eu... Bom... agente pode conversar sobre isso amanhã ou outro dia – diz Renato, evasivo.

– Por mim, está ótimo. Não estou com tanta energia agora. Eu vou tomar um bom banho se a preguiça me deixar levantar daqui.

Tom se ergue e fica sentado na cama. Renato o observa enquanto ele tira os sapatos e a camisa. A pele clara e imaculada de Tom mexia com os desejos de Renato. Desde o dia em que ele sofreu o acidente e perdeu a memória, é como se ele houvesse renascido. A partir daquele momento ele não questionava sua sexualidade, se era gay ou hétero. Apenas seguia sua atração instintiva. Provavelmente, em seu subconsciente, ele reconhecia ser atraído pelo mesmo sexo, mas sua condição sexual, então, não era mais mistificada ou auto-reprimida. Ele era o que era, sem perguntas, sem dúvidas, sem culpa.
Ainda deitado na cama, Renato se atreve a tocar na pele de Tom com as pontas dos dedos. Foi um toque carinhoso que causou em Tom, surpresa e arrepios. Ele olhou para Renato com o rosto corado de timidez. Então, Renato alisou suas costas – que não tinham sequer uma mancha ou sinal – desta vez, com a palma da mão inteira. Tom estava paralelamente tímido e excitado. As carícias de Renato o causaram uma ereção que se estabeleceu em um curto instante. Renato se ergueu e o fitou diretamente nos olhos. Eles se miraram por uns dez segundos até que Renato beijou os lábios róseos que o haviam instigado por várias semanas. Quando os lábios de desencostaram, Tom olhou para baixo, encabulado. Renato, carinhosamente, segurou seu maxilar e levantou o seu rosto.

– Muito obrigado, Tom, pelo que você tem feito por mim.

– Não há nada a agradecer, Renato. Eu só fiz o meu papel de cidadão.

– Você tem feito infinitamente mais do que me ajudar. Você cuidou de mim, me abrigou, me alimentou, me vestiu, acreditou em mim... Eu sei que nos conhecemos há muito pouco tempo mas eu creio que já posso dizer uma coisa.

– Dizer... dizer o que, Renato? – Tom pergunta, emocionado.

– Tom... Eu te amo.

Os dois mergulham em um beijo intenso. Renato abraça e pressiona o corpo de Tom contra o seu. Tom enlaça os braços em volta da nuca de Renato, que passa a devorar seu pescoço com a boca voraz. Entre os beijos fervorosos, Tom fala, de olhos fechados:

– Eu ainda preciso tomar banho, Renato.

Sem interromper os beijos, Renato responde:

– Não seja por isso. Vamos os dois para o chuveiro.

Renato levanta, puxa Tom pelo braço, agarra e ergue seu corpo. Suspenso, Tom abraça a cintura de Renato com as pernas e assim, os dois entram no banheiro. O banho foi regado a férvidos beijos e pegadas veementes. Após a ducha, sem nem sequer se secarem, os amantes deitaram na cama completamente nus. Tom abre a gaveta de cabeceira e pega um pacote de preservativos que já estava lá por bastante tempo – ele não costumava transar com estranhos e estava sem sexo desde seu último namorado. Verificou a validade dos preservativos e estavam OK. Abriu o pacote, sacou uma unidade e rasgou a embalagem com os dentes. Os dois fizeram amor até às quatro horas daquela noite.


O dia invadia a casa de Tom pela janela do quarto. A luz do sol, através dos vidros, beijava a pele dos amantes que dormiam angelicalmente, abraçados, “de conchinha”. Com seu peito cálido, Renato aquecia as costas de Tom.
Ao meio dia, Tom desperta com um toque suave. Era o polegar de Renato acariciando seus lábios. Quando ele abriu os olhos, recebeu um beijo e uma leve mordidinha no lábio inferior.

– Não, Renato. Pára! Devo estar com um hálito terrível! – Diz Tom, com uma voz rouca e um bocejo.

– Claro que não, dorminhoco. Mesmo se estivesse eu ainda beijaria essa boca gostosa.

– Tá bom. Até parece! – Tom ri.

– Olha só isso aqui – Renato pousa uma bandeja sobre o colo de Tom.

– Desta vez, eu fiz um café para você. Na verdade, um café para nós dois.

Tom sorri comovido pelo gesto doce de Renato e o agradece pelo café. Eles comem e conversam harmoniosamente. A bandeja estava bem recheada – seus corpos necessitavam de bastante alimento, visto que haviam gasto muita energia na noite anterior. Após alguns minutos de conversa e um intervalo de silêncio, Tom indagou:

– Então. Ontem quando saímos do restaurante você ficou um tanto estranho. Por quê?

– Bom, você ficou estranho primeiro, então, você é quem tem que me contar. Desembucha aê, vai!

– Tá bom, espertalhão. Eu contro primeiro.

Tom diz em um tom de brincadeira enquanto aperta o nariz de Renato.

– Sabe aquele pessoal estranho que nós vimos no restaurante ontem à noite?

– Sim, o que tem eles?

Renato sente um frio no peito.

– Você se lembra de quando me perguntou sobre o machucado no meu nariz?

 Sim, lembro – Renato confirma, compenetrado. 

– Eles pareciam com... – Tom suspira – com um pessoal que... que me agrediu há algumas semanas.

– Eles te agrediram? – Renato pergunta, com os olhos arregalados.

– Não tenho certeza se são eles ou não mas a garota é bem parecida com a que eu lembro. Usava roupas do mesmo tipo e tinha um jeito bem similar.

– Como eles te agrediram? E... onde isso aconteceu?

– Como eu já disse, não tenho certeza se são eles, até por que no dia em que fui agredido, não gravei os rostos. É muito difícil falar disso.

Renato retira a bandeja da cama e deita ao lado de seu amado. Tom repousa a cabeça sobre o peito de Renato e o abraça, ao que ele beija e afaga seus cabelos com as pontas dos dedos.

– Diz pra mim o que eles fizeram com você – diz Renato, solidário.

– Eu estava vindo do Baú, um bar gay na praia do forte, mais para o cantão direito, quando ouvi o barulho de um carro vindo atrás de mim. Eles pararam e começaram a me xingar de um monte de nomes e logo depois me bateram sem parar. Quando eu achei que tinha acabado, eles me jogaram no porta-malas do carro. Quando me tiraram lá de dentro, estávamos perto das dunas. Daí eles me arrastaram até a areia e me bateram ainda mais. Depois, tiraram minha roupa e me deixaram lá. Achei que iriam me matar mas por sorte, me pouparam disso.

Lágrimas rolavam abundantes dos olhos de Tom. Renato estava intrigado com a possibilidade de ter alguma relação com aquele grupo.

– Como você conseguiu sair de lá?

– De alguma forma, eu consegui esconder meu celular. Assim que eles foram embora, eu liguei para a Alexa.

– Quem é Alexa?

– Alê.

– Entendi. E... Você não fez queixa na polícia?

– Fiz. Fui com a Alê à delegacia. Eu não tinha muitas informações úteis. Apenas um nome que eu ouvi sendo dito pela mulher do grupo.

– E que nome foi esse – Renato pergunta, curioso.

– Acho que foi Adolfo ou algo assim.

Renato paralisou. Com os olhos arregalados ao máximo, como se visse um fantasma, ele levantou subitamente da cama e colocou as mãos na cabeça. Andava de um lado para outro, altamente descompensado.

– O que foi, Renato? – Tom pergunta, assustado.

– Eu lembro... Eu lembro! – Renato dispara, começando a chorar.

– Lembra o que, Renato? Fala! você está me assustando!

Renato corre até o banheiro, ajoelha-se em frente a privada e vomita compulsivamente. Tom vai até ele e coloca a mão sobre suas costas. Renato resiste rudemente, levanta e começa a se vestir, afobado.

– O que há de errado, Renato? Me conta por favor! – Tom implora.

– Não posso ficar aqui – Renato diz, chorando. – Preciso ir. Eu tenho que ir embora.

Tom tenta segura-lo, mas ele o empurra bruscamente, derrubando-o no chão. Renato dispara porta a fora, deixando Tom sozinho, com medo, confuso e em prantos.


***
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Obrigado!

Jon Paredes

2 comentários:

  1. Então, pelo que entendi Tom é mesmo Éverton. Minha nossa, estava a correr tudo tão bem com eles os dois. Renato recuperou a memória, o que vai ele fazer agora?

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    Respostas
    1. É... Tom é o apelido carinhoso para ÉverTOM. Sabe o que Renato vai fazer agora? Está lá na parte 6.
      E aí, conseguiste ver o anjo na parte 3? hehe

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